Saiba como funciona e como é a vida nas ecovilas

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Imagine um lugar em que as pessoas interajam e vivam em harmonia com a natureza. Pois bem, este local existe em várias partes do mundo e leva o nome de ecovila. As ecovilas são definidas como comunidades organizadas para desenvolver atividades centradas no equilíbrio entre as pessoas e com o meio ambiente. As ecovilas foram concebidas há mais de 50 anos e fazem parte de um movimento global, que visa criar comunidades autossuficientes, sustentáveis e em harmonia com o meio ambiente. Cada ecovila abriga em média de 30 a 2 mil pessoas, que possuem diferentes culturas e religiões. Um dos princípios fundamentais que une quem as habita é não tirar da Terra mais do que podemos devolver a ela. Além disso, é importante o relacionamento interpessoal baseado na solidariedade, na cooperação e na difusão das informações.

Para que deem certo, é preciso seguir algumas práticas, como a criação de esquemas de apoio familiar e social, utilização de energias renováveis, produção orgânica de alimentos, bioconstrução, economia solidária, preservação do meio ambiente, entre outros.

Além do viés ecológico, essas comunidades integram aspectos econômicos, sociais e culturais. Lá, técnicas de gestão participativa são utilizadas para a tomada de decisões e permacultura para a construção das moradas em harmonia com a natureza. Todos trabalham, todos têm voz, todos colaboram.

Elas são pautadas pelo uso de tecnologias alternativas tais como energia eólica e solar e agricultura orgânica, propostas econômicas inovadoras, experiências de democracia direta, tomada de decisão inclusiva e adoção de uma perspectiva de prevenção da saúde combinada com sistemas tradicionais de medicina, aspectos múltiplo, culminam em uma proposta de estilo de vida alternativo que possibilita a existência de novas sociedades alternativas e holísticas. A revista Bem-Estar traz algumas sugestões de ecovilas bem-sucedidas pelo Brasil.

Ecovila Clareando, em Piracaia-SP

É num condomínio rural no coração da Serra da Mantiqueira que tem como objetivo viver em harmonia com a natureza, utilizando os recursos naturais de forma sustentável. Considerado um dos principais do estado, entre as cidades de Piracaia e Joanópolis, situa-se entre os vales e montanhas da Mata Atlântica. A proposta inicial era criar um condomínio rural com os ex-acampantes que cresceram e suas famílias, dando continuidade ao clima de fraternidade gerado nas semanas dos acampamentos. Muitos simpatizantes pediram para “abrir as porteiras” para todos aqueles que se afinassem com a proposta. Cada família integrante ainda se envolve em atividades ligadas à permacultura, apicultura, horticultura, construção com materiais alternativos, entre outras. A área destinada para moradias é um imenso pasto aberto que conta com uma infraestrutura de ruas, rede elétrica e rede de saneamento.

Ecovila Viver Simples

É um projeto criado para acolher idéias inovadoras que atualmente estão mudando a face do planeta r retornar ao simples e ao natural para seguir um caminho sustentável. Um grupo de parceiros e os muitos colaboradores se propõem a experimentar idéias inovadoras e a compartilhar os aprendizados produzidos em rede. Surge uma comunidade aberta, formada por pessoas que compartilham o mesmo sonho, mesmo que não tenham a intenção de residir no local. Formado por um grupo de famílias, o condomínio rural tem área de cultivo, um centro de aprendizado onde são oferecidos cursos, chalés para visitantes e cozinha comunitária.

Ecovila Terra Una

A ecovila localizada na Serra da Mantiqueira, no município de Liberdade, busca integrar moradia, trabalho, educação e lazer. Segundo o site, vem se consolidando como um centro educacional transdisciplinar de integração rural-urbana, onde é possível praticar técnicas e valores sustentáveis. Recebem visitantes durante os cursos ou em semanas específicas. Todos são convidados a colaborar nas tarefas de cuidados de nós mesmos na comunidade, especialmente preparo das refeições e harmonia dos espaços. Com isso além de partilhar as responsabilidades com o bem-estar comum, o objetivo é a experiência em vida comunitária.

Ecovila Bambu

Uma propriedade rural de aproximadamente nove hectares situada no início da Serra Gaúcha, a ecovila Bambu foi fundada em 2005 e é um grande espaço comunitário com fins educacionais e culturais sobre as práticas de sustentabilidade. O local tem uma agenda extensa de cursos e eventos durante o ano inteiro, e também está aberto para visitas guiadas. No local, segundo o site, são vivenciadas e ensinadas inúmeras práticas tradicionais como agricultura orgânica, bio-construção, sistemas agroflorestais, permacultura, criação de animais, energia alternativa e artes em geral.

Ecovila El Nagual

Em uma grande vegetação de Mata Atlântica, o El Nagual foi criado e, 1989 por um casal de estrangeiros que decidiu transformar uma pousada em uma rústica e charmosa ecovila. O local possui um programa de voluntariado, mas também oferece cursos, workshops e visitas guiadas.

Gabriel Siqueira com moradores da Aldeia: Coletivo de Famílias, em Itacaré, na Bahia
Gabriel Siqueira com moradores da Aldeia: Coletivo de Famílias, em Itacaré, na Bahia

O publicitário André Nogueira e a mulher, Cássia, se preparam já há alguns anos, para viver em uma ecovila com os dois filhos, de 17 e 8 anos. Para isso, têm estudado todo o sistema que começa muito antes da mudança, segundo ele, e feito cursos e participado de movimentos de pessoas e sustentabilidade. “Nossa ideia é recuperar o contato com que o homem perdeu com a natureza que existe em cada um de nós”, explica. Local e atividades a serem desenvolvidas ainda estão em processo de amadurecimento mas ele garante que isso deve acontecer a curto e médio prazos.

O especialista em gestão de ecovilas Gabriel Siqueira apoia grupos, coletivos e organizações a planejar e realizar projetos colaborativos. Entre espaços coletivos, urbanos e cohousing e ecovilas, participou ativamente de cinco. Em 2012 mudou de Florianópolis com a família para a ecovila Aldeia: coletivo de famílias, a comunidade intencional sustentável que ajudou a fundar na zona rural de Itacaré, no sul da Bahia. Hoje, vive com sua esposa Renata Gomez e seus filhos Nara Rosa e Ravi em uma ecovila no litoral norte de Ilhéus.

A ideia de partir para um modo de vida diferente do convencional surgiu quando ele estudava em São Paulo mas sentia falta de ter mais tempo para fazer coisas que não conseguia, ter contato com a natureza e se relacionar mais com as pessoas. “Ir para Florianópolis, em Santa Catarina em 2005 e fazer o mestrado já foi parte dessa opção de morar numa ecovila. Foi um processo de querer viver um aprofundamento de amizades, a vivencia de trabalho coletivo”, conta. Lá, ele morou por sete anos e se envolveu com pessoas ligadas à permacultura, sempre buscando a proximidade com a natureza e a vontade de criar um projeto de lançar uma ecovila. Nesse processo se casou e foi quando nasceu a primeira filha, mais ou menos na época que estava iniciando o mestrado e decidiu planejar a vida e dar esse passo que era o de morar numa ecovila. “Direcionei toda a pesquisa do mestrado para fazer esse mapeamento de comunidades e nesse processo foi um pouco acelerado porque a filha estava com dois anos e o filho para nascer”, conta.

Quando a filha nasce, ele conta que ele e mulher já estavam em um processo de transição que vinha acompanhado tanto de uma insatisfação com as possibilidades de sobrevivência e de vida na cidade, quanto uma vontade de criar um espaço para que as crianças pudessem crescer com tranquilidade, que pudessem ter relações e um modo de coletivo. “Quando terminei o mestrado em 2012, junto com a família, criamos junto com outras duas famílias uma comunidade no Sul da Bahia, a Aldeia, em Itacaré, no Sul da Bahia, onde vivemos por quase cinco anos. Foi um processo lento gradual, sem fazer mudanças radicais na vida, incluindo coisas no dia a dia”, explica. Atualmente, mora em uma fazenda, a Aritaguá, ao norte de Ilhéus e 40 pessoas entre adultos e crianças dividem o espaço que se encontra em processo de criação de comunidade. O maior desafio para morar em uma ecovila, segundo ele, são as relações humanas e criar mecanismos para que todos consigam trabalhar juntos, tomar decisões e não deixar que os conflitos permeiem as relações.