Redes criam projetos de preservação para reduzir impacto de hotéis no Nordeste

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Destino mais procurado por viajantes brasileiros, segundo o Ministério do Turismo, o Nordeste virou alvo de investimentos bilionários de redes hoteleiras.

A chegada desses empreendimentos aumenta a oferta de empregos e aquece a economia local. Mas também pode alterar o ambiente em áreas de preservação e elevar o risco de desaparecimento da vegetação nativa.

O Rio Grande do Norte passa por isso. O estado vai receber um complexo com dois resorts de luxo e uma vila de casas da rede Six Senses, com sede na Tailândia.

O empreendimento, que começa a ser construído em 2019, vai ficar na Baía Formosa, santuário ecológico a 90 quilômetros de Natal.

O investimento é de R$ 6 bilhões, e a previsão é que o complexo gere 400 empregos diretos. Mesmo numa área de mata atlântica, o grupo conseguiu a licença prévia do órgão de controle.

Segundo o diretor-geral do Idema (Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente), Rondinelle Oliveira, 17% dos 2.700 hectares do terreno serão ocupados. “Chegamos a um acordo para fazer a instalação numa área já degradada”, diz.

Tartarugas marinhas usam o lugar para desova, mas o Six Senses promete instalar um centro de conservação desses animais, afirma Jeffery Smith, vice-presidente de sustentabilidade do grupo. “O protocolo em nossos hotéis é proteger os ninhos e não interferir na incubação.”

O Idema concedeu licença para outras três grandes instalações no litoral potiguar, incluindo um resort do grupo português Vila Galé.

“Muitas pessoas acreditam que esses hotéis podem ser responsáveis por problemas ambientais, mas muitas vezes acontece o contrário. Hoje, quase todos têm projetos de sustentabilidade”, afirma Mariana Aldrigui, professora da USP e especialista em educação para o turismo.

Em 2008, quando os primeiros estudos foram apresentados, o investimento seria de R$ 300 milhões para uma área de 120 hectares.

O projeto prevê a construção de um hotel, um flat, uma marina, um clube, lotes para casas e a recuperação de uma igreja que fica no local.

O diretor da divisão imobiliária do grupo, Francisco Bacelar, diz que falta entrosamento entre os órgãos públicos de controle. “Nossa expectativa era que fosse aprovado com mais celeridade.”

O diretor-presidente da CPRH (Agência Estadual de Meio Ambiente), Eduardo Elvino, diz que a legislação é rígida e precisa ser cumprida. “O projeto inicial era ruim.”

Por exigência do órgão, o grupo JCPM precisou realizar estudos geológicos, arqueológicos, urbanísticos e de correntes de maré. Foram exigidos ainda detalhamento da vegetação, escavações e análise de avanço do mar.

Segundo Elvino, agora o projeto deve ser aprovado. “Falta apenas a manifestação do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Nacional).”

Na Bahia, a praia de Maraú recebe ainda neste ano o primeiro hotel de luxo da rede Anantara na América do Sul.

O governo estadual quer repetir no lugar o exemplo de dois outros polos: Morro de São Paulo e Praia do Forte.

Em Morro de São Paulo, que recebe 300 mil pessoas por ano e cobra taxa de visitação, foi reaberta uma fortaleza do século 17 para atrair mais turistas. “A obra teve base em princípios sustentáveis”, afirma o secretário do Turismo da Bahia, José Alves.

FORA DO EIXO

As redes hoteleiras também têm se voltado para lugares pouco explorados pelo turismo. Atins, uma vila no Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, e Barra Grande, em Cajueiro da Praia (PI), são os próximos alvos.

Nesta última, foi finalizado em 2017 um projeto do governo estadual em parceria com a sociedade civil para transformar o local em referência de turismo sustentável nos próximos 13 anos. Quem quiser investir no lugar deve seguir regras de preservação.

“Para os hotéis, projetos sustentáveis têm valor ético, mas também valor de marketing, já que assim podem obter financiamento mais facilmente”, diz Aldrigui.