É preciso novo olhar sobre o meio ambiente

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O currículo é extenso. Assim como as atividades desenvolvidas em prol do meio ambiente há 30 anos. Marta Angela Marcondes é professora titular da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), especialista em recursos hídricos, coordenadora do projeto IPH (Índice de Poluentes Hídricos) e das Expedições Mananciais. Todo o trabalho desempenhado tem um único objetivo: a saúde da população. Preocupada com a situação dos córregos, rios e da Represa Billings, a filha de São Caetano chama atenção para a necessidade de se enxergar que a qualidade do meio ambiente significa vida com qualidade. Para isso, ela cobra investimentos e vontade política.

Marta Angela Marcondes e o Diário
Natural de São Caetano, Marta Angela Marcondes se diz orgulhosa por ter o Diário como companheiro. Fonte de informação na infância – era leitora do Diarinho aos domingos –, e na adolescência – consultou o jornal para conferir o nome na lista de aprovados no vestibular –, se tornou também parceira de trabalho na fase adulta, na década de 1990, quando coordenou a Escola de Ecologia e o Parque Botânico Presidente Jânio da Silva Quadros, em São Caetano. A lembrança mais marcante, no entanto, é de 2007, quando recebeu o prêmio Mulheres em Destaque, promovido pelo Diário, na categoria pesquisa, ciência e tecnologia.

Como especialista em recursos hídricos, o que a senhora pode dizer a respeito dos rios e córregos do Grande ABC?
Infelizmente existe descaso muito grande em relação aos nossos recursos hídricos. Estamos em uma região onde praticamente 70% de seu território estão inseridos em áreas de proteção aos mananciais, mas isso não é levado em consideração. A falta de tratamento de esgoto doméstico e seu despejo in natura nos rios e córregos nos mostram o quanto estamos longe de cumprir as metas de saneamento. Estudo os rios Tamanduateí, Meninos, Ribeirão dos Couros; córregos Utinga, Moinhos, Cassaquera, Oratório. Quando faço as análises, estão sempre com qualidade (da água) péssima ou ruim, indicando que o despejo continua. Ainda temos as nascentes, que em sua maioria está soterrada, ou mesmo sob prédios, dentro de garagens, além de que em alguns locais essas nascentes estão sem vegetação ou mesmo cobertas por resíduos. As ocupações desordenadas, as grandes obras, como Rodoanel, dutos, empreendimentos imobiliários, entre outras situações, prejudicam dia após dia nossos recursos hídricos. Os cursos dos rios que foram modificados, as marginais construídas ao longo das áreas de inundação, tudo contribui para a situação triste em que esses rios, córregos, nascentes e reservatórios se encontram.

Quais os reflexos desta situação para a população?
Os reflexos disso já estamos sentindo, são as constantes enchentes, a falta de água para algumas regiões e doenças de veiculação hídrica. Além da perda da capacidade de armazenamento dos nossos reservatórios, que perdem espaço para resíduos sólidos destinados incorretamente, ocupações irregulares, empreendimentos imobiliários e esgoto não tratado, que é jogado diretamente em suas águas.

O que pode ser feito para solucionar os problemas?
Ainda bem que existem soluções. Sou otimista. Que a legislação seja cumprida efetivamente, temos a Lei de Proteção aos Mananciais, e também a Lei Especifica da Billings, além do Código Florestal. Planejamento para o futuro da nossa região, porém, com vistas aos recursos hídricos. Como, por exemplo, desenterrar rios, córregos e nascentes que podem melhorar sensivelmente a saúde física e mental da população. Revigorar as margens de rios e córregos com vegetação nativa de mata ciliar, criando parques lineares, por exemplo. Colocação de balsas com plantas que possam efetuar a retenção e aproveitamento da matéria orgânica que é despejada nesses corpos d’água. Criação efetiva das políticas públicas de saneamento dos municípios do Grande ABC. Programa de educação ambiental e sanitária para a população. Educação socioambiental para os gestores públicos.

E sobre a Billings? O que ainda é preciso dizer? 
Nossa Billings, o bem mais precioso da região, um manancial que deve ser preservado para que possamos deixar como legado para as futuras gerações. Esse deveria ser o nosso compromisso. Atualmente, mais de 70% do reservatório se encontram em situação de risco, pois os resultados obtidos (em expedição realizada) nos três anos consecutivos mostram que os pontos estudados se encontram em situação regular, péssima ou ruim, segundo o IQA (Índice de Qualidade de Água) e apenas 53 pontos se encontram bons. O que leva risco constante às populações que vivem em áreas de interferência, bem como para a fauna e flora locais. Como dizem meus alunos, às vezes o óbvio precisa ser dito. Então estou eu aqui dizendo o óbvio, mas necessário. O fundo do reservatório armazena milhões de metros cúbicos de lodo que ainda é desconhecido, e esses estudos necessitam ser efetuados, mas para isso serão necessários equipamentos adequados e equipe técnica especializada. A saúde da população necessita de carinho especial, temos estudo que foi iniciado em 2017 com comunidade específica, e que já nos dá os indicativos do quanto o ambiente alterado e poluído afeta a qualidade de vida dessas pessoas.

Por que nosso manancial ainda não foi despoluído?
A Billings está em uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e necessita de cuidados urgentes, caso contrário vamos perder para as doenças que podem se instalar. Nosso manancial ainda não foi despoluído por falta de vontade política e falta de investimentos em saneamento, além de processos de revegetação e ações efetivas de habitação, com seriedade e com atitudes. Existem milhões de exemplos exitosos de processos de despoluição que poderiam ser adotados, basta que se faça a lição de casa corretamente.

O que falta para que a preocupação ambiental esteja presente nas políticas públicas? 
Infelizmente não se conecta a qualidade do ambiente com a qualidade de vida e saúde da sociedade civil, e como nós, humanos, sempre nos colocamos em primeiro plano, não temos o entendimento de que o ambiente e todas as outras espécies animais e vegetais, que convivem conosco, são essenciais para a nossa sobrevivência. Será necessário novo olhar sobre as questões ambientais, com gestores públicos e tomadores de decisão mais sensíveis e conscientes para o ambiente. Tenho muita esperança de que algumas coisas já estão tomando rumo para que isso aconteça, como, por exemplo, a nova geração de seres humanos que já pensam no ambiente de outra forma.

Qual a importância da parceria entre universidade e poder público para a resolução de problemas? 
A universidade tem como base o ensino, a pesquisa e a extensão, e, assim, o desenvolvimento do conhecimento com práticas e descobertas que permitam utilizar os conhecimentos na vida diária com a finalidade de melhorar as condições de vida, para que todas as pessoas possam intervir socialmente, com critério científico, em decisões políticas. Os representantes do poder público podem ser valer desse conhecimento para o planejamento e a gestão pública, mesmo para tomada de decisões, e mesmo para a questão orçamentaria. Um exemplo disso é que estudos demonstram o quanto se economiza em Saúde de atenção básica quando se investe em saneamento. Isso só foi possível saber por meio de pesquisa científica. Na minha visão, essa parceria só traz benefícios tanto para os gestores públicos quanto para as universidades, que põem em prática os estudos realizados.

Isso vem sendo feito? Já temos resultados práticos?
Em alguns casos sim. Exemplo disso foi que no fim do ano passado nossa equipe do Projeto IPH (Índice de Poluentes Hídricos) entregou para todas as prefeituras do Grande ABC cópias dos relatórios do reservatório Billings, inclusive para o Consórcio Intermunicipal do Grande ABC. Isso gerou abertura para as discussões dentro de algumas prefeituras, utilizando como base os resultados obtidos pelo estudo. Resultados concretos? A parceria para o desenvolvimento de projeto maior com o envolvimento das cidades.

O que mais o Diário pode fazer para fortalecer o meio ambiente da região?
Continuar retratando o que acontece, apoiando e divulgando os estudos como vocês têm feito durante anos, mantendo pessoas sensíveis para os problemas regionais, e continuar dando os espaços para as discussões. Vocês estão de parabéns pelo trabalho realizado. Tê-los como parceiros é sensacional.

Se pudesse realizar qualquer feito no Grande ABC, qual seria?
Unir todos os estudos realizados e fazer banco de dados para disponibilizar as informações para a sociedade civil. Realizar fóruns permanentes de apresentação de resultados obtidos nesses estudos. E conseguir ter o poder público como parceiro efetivo nesse momento. Que esses estudos todos fossem utilizados nos planejamentos urbanos da região. Muito se fala de smart cities. Algumas dimensões indicam o nível de inteligência de uma cidade: governança, administração pública, planejamento urbano, tecnologia, meio ambiente, conexões internacionais, coesão social, capital humano e economia. Mas a meu ver, o ambiente deve ser a linha de orientação para todo o processo. Tudo conseguimos planejar, porém, uma nascente, por exemplo, não pode ser criada. Ela existe e deve ser preservada, não adianta toda tecnologia do mundo se não houver água de qualidade para a manutenção da vida, como conhecemos hoje. A criação de espaço dinâmico especifico para os recursos hídricos, como museu interativo da água, com atividades que possam levar as pessoas a refletir sobre toda a problemática da região. Desenterrar rios, córregos e nascentes da região e revitalizar cada corpo de água. Imagine se pudéssemos passar dias de calor às margens do Rio Tamanduateí, como uma praia de água doce. Não seria o ideal dos mundos?

Que futuro espera para o Grande ABC?
Efetividade na aplicação das leis que incidem sobre a nossa área. Gestores públicos sérios e comprometidos com a questão ambiental. Maiores investimentos para a área de saneamento e ambiente. Que pudéssemos respeitar a Mata Atlântica como um ecossistema que precisa ser preservado, pois sem floresta não temos água. A vegetação é o que garante a recarga de água das nascentes, rios, córregos e reservatórios. Planos de energia alternativa para as cidades da região, como energia solar, por exemplo. Respeito com a fauna existente. Respeito aos animais domésticos, pois existem muitas pessoas que abandonam seus animais e isso percebo cada vez que saio para estudar o reservatório, ou mesmo um rio da região. Quando digo sempre é toda vez. Ou encontro um animal morto, ou vários animais abandonados. Respeito às comunidades tradicionais que vivem em nossa região, como é o caso da Aldeia Indígena Guyrapa-Ju, da etnia Guarani Mbya, respeito ao modo de ser dessa população. Respeito aos pescadores que vivem da Billings. A água e o reservatório são a fonte da vida dessas comunidades. Que suas terras e sua água sejam preservadas. Que locais como Rio Grande da Serra, que amo de paixão, ou mesmo Paranapiacaba (vila histórica de Santo André), que também amo demais, fossem locais onde o turismo – planejado e organizado – fosse carro-chefe e assim pudéssemos manter suas áreas verdes e seus moradores pudessem trabalhar em projetos locais. Isso seria o ideal dos mundos.